AGOSTINHO DE HIPONA. A cidade de Deus: contra os pagãos - parte I ( livos I a X). Petrópolis: Editora Vozes, 2021.
Capítulo XIII
Como os demônios, sem serem felizes com os deuses nem miseráveis com os homens, ficam entre ambas as partes, sem comunicar-se com estes nem com aqueles
1. Entre as duas ordens de atributos opostos que separam os homens dos deuses, como classificar os demônios? Não há, de início, dificuldade alguma, quanto ao lugar, pois Apuleio lhes atribui posição intermediária. Pois, entre os dois extremos, a saber, entre o lugar supremo e o lugar ínfimo, subentende-se necessariamente o intermédio. Mas restam duas circunstâncias que requerem cuidadoso exame. São estranhas aos demônios? Ou podem ser-lhes atribuídas, como parece exigir o papel de mediadores? Ora, não poderiam ser-lhes estranhas. Se, com efeito, definimos o lugar médio dizendo que não é nem o mais alto nem o mais baixo, contudo não nos é possível dizer que os demônios, animais racionais, nem são felizes, nem infelizes, como as plantas ou os brutos desprovidos de sentimento ou de razão. Porque é necessário que a alma racional seja feliz ou infeliz. É, ainda, impossível dizer que os demônios nem são mortais, nem imortais, porque todo ser vivo vive eternamente ou acaba por morrer. É, segundo Apuleio, os demônios são eternos. Que resta, senão que, situados entre as duas naturezas extremas, tenham uma coisa das duas supremas e outra das duas ínfimas? Porque, se os dois outros atributos, quer na ordem superior, quer na ordem inferior, lhes são conferidos, perdem a posição intermediária e retombam em um ou em outro extremo. Ora, é impossível, já o demonstramos, que um e outro dos atributos lhes faltem ao mesmo tempo; torna-se necessário, pois, que tenham uma das duas partes para conservar o meio. Mas o extremo inferior não poderia dar-lhes a eternidade que não tem; tomam-na, por isso, de empréstimo ao extremo superior e, para tornar-se completa a mediação, resta-lhes apenas ter do extremo inferior a miséria.
2. É privativa dos deuses sublimes, segundo os platônicos, ou eternidade feliz ou felicidade eterna; dos homens ínfimos, ou miséria mortal, ou mortalidade miserável; dos demônios mediadores, ou mísera eternidade, ou eterna miséria. Ora, as cinco qualidades que, definindo-os, Apuleio lhes atribui não provam, segundo o filósofo promete, a mediação dos demônios entre os deuses e os homens. Porque lhes atribui três qualidades de comum conosco: natureza animal, espírito racional e alma sujeita a paixões, uma só de comum com os deuses, a eternidade, e uma só que lhes é própria, a sutilidade aérea do corpo. Como poderão, pois, conservar-se no meio, se têm uma coisa em comum com os seres superiores e três com os inferiores? Quem não vê quanto se afastam do meio, como se inclinam e pendem para baixo? A mediação, contudo, poderia ser possível, estabelecendo-se que dos diversos atributos um apenas lhes é próprio, o corpo aéreo, como, quanto aos dois extremos contrários, o corpo celeste pertence aos deuses, o corpo terrestre aos homens, a todos a posse de alma e razão. Não nos diz Apuleio, falando dos deuses e dos homens: Tendes duas espécies de seres animados?
E os platônicos jamais apresentam os deuses, senão como espíritos racionais. Restam, por conseguinte, dois atributos: a paixão e a eternidade, o primeiro em comum com os seres de ordem inferior, o segundo com os de ordem superior. Assim, a condição dos demônios permanece intermediária e em justo equilíbrio entre a extrema exaltação e o extremo rebaixamento. Eis, portanto, o destino dos demônios: eternidade infeliz ou miséria eterna. Com efeito, o filósofo que os declara de natureza sujeita a paixões ter-lhes-ia também atribuído participação na miséria, se não se envergonhasse pelos que os adoravam. Ora, como, segundo confissão dos próprios platônicos, é a providência de Deus e não a temerária fortuna que governa o universo, a miséria dos demônios não seria, em absoluto, eterna, caso não fossem dotados de profunda malícia.
3. Se aos bem-aventurados é justo chamar eudaimones, não são, por conseguinte, eudaimones os demônios intermediários entre os deuses e os homens. Que lugar seria, com efeito, o dos bons demônios que, acima dos homens, lhes prestariam assistência e, abaixo dos deuses, os serviriam? De fato, se eternos e bons, sem dúvida são felizes. Ora, a eterna beatitude afasta-os do meio, aproximando-os dos deuses à medida que os separa dos homens. Assim, inutilmente se procura conciliar a beatitude e a imortalidade dos demônios com a situação intermediária em que se encontram entre os deuses imortais e felizes e os homens miseráveis e mortais. Com efeito, se têm com os deuses a beatitude e a imortalidade, atributos recusados ao homem, destinado às misérias e à morte, afastá-los do homem e associá-los aos deuses não é mais exato que atribuir-lhes posição intermediária entre os deuses e o homem? Pertencer-lhes-ia o meio, se correspondessem a dois atributos, não de uma parte ou de outra, mas de uma e de outra parte. Assim, o homem é como que meio-termo entre os brutos e os anjos: os brutos, seres animados, irracionais, mortais; os anjos, seres animados, racionais, imortais; o homem, intermediário, inferior aos anjos, superior aos brutos, partilha a mortalidade com os brutos e a razão com os anjos. Em suma, é animal racional e mortal. Por conseguinte, procurando encontrar o meio-termo entre os bem-aventurados imortais e os miseráveis mortais, devemos encontrar bem-aventurado mortal ou miserável imortal.